Curiosidade: É interessante lembrar que esta música foi utilizada como trilha sonora de novela, o que gera uma metalinguagem com as cenas de beijo e às inconstâncias de relacionamentos, tão comuns a este gênero literário.
"Ando tão à flor da peleQualquer beijo de novelaMe faz chorar"
A letra começa falando do tempo psicológico do relato. "Ando" é um jeito de dizer "ultimamente" e "à flor da pele" é uma metáfora para sensível. Portanto, a primeira estrofe mostra que o locutor está em um momento de sensibilidade em que qualquer miudeza toca seu íntimo, mesmo algo como um beijo de novela pode remeter ao âmago e trazer uma lembrança emotiva, portanto, culminando no choro.
"Ando tão à flor da peleQue teu olhar 'flor na janela'Me faz morrer"
A repetição que se segue dá ênfase ao estado, à medida que brinca com as palavras e cita a "flor na janela". Há uma superstição brasileira sobre flores colocadas nas janelas para livrar os moradores do mau-olhado, dizem que quando as plantas morrem é porque absorveram muita energia negativa. Complementando o quadro, há um hábito comum de se colocar mudas jovens de pimenteira na janela, pois é uma planta forte e, segundo a sabedoria popular, bem indicada para este ritual, além de propiciar pequenas flores brancas.
Além desta breve explanação cultural, "flor" também simboliza "mulher", portanto, pode indicar um dialogismo entre os significantes, de modo que o olhar de desejo de uma mulher faça com que que o interlocutor "morra", tamanha sua sensibilidade, apesar de que esta finitude pode estar relacionada a um "morrer de prazer" ou "vergonha", ou, ainda, a uma drenagem de suas defesas.
"Ando tão à flor da peleMeu desejo se confundeCom a vontade de não ser"
Nesta sequência, a suspeita se afirma quando ele fala do desejo, tão grande, que se confunde com a vontade de não ser. Isto é meio ambíguo, mas é perceptível no sentido de negação, pois quando se sente muita necessidade de algo, começamos a querer que este algo não seja mais necessário, de modo a apaziguar o ID. (conceito da psicanálise que engloba o instinto e os desejos irrefreáveis do ser).
"Ando tão à flor da peleQue a minha peleTem o fogoDo juízo final"
Mais uma vez o locutor reforça sua instância emotiva e completa, desta vez, com "minha pele tem o fogo do juízo final". Fogo, no sentido figurado, indica libido, a metáfora vem para mensurar que a libido não tem limites, como o fogo do juízo final. Esta é uma crença cristã que prevê o fim do mundo em chamas, uma vez que já se acabou em água uma vez (dilúvio).
"Um barco sem portoSem rumo, sem velaCavalo sem selaUm bicho soltoUm cão sem donoUm menino, um bandidoÀs vezes me preservoNoutras, suicido!"
Neste ponto da música, o locutor começa a se comparar a uma série de coisas. Primeiro a um barco, desgovernado, sem ímpeto e desamparado; um cavalo indomável, um animal selvagem, um cão vadio; alguém inocente e, ao mesmo tempo indecente. Com isto, percebe-se que o locutor pode ser uma pessoa solitária em crise, que vezes se protege de relacionamentos, outras se atira a eles sem o menor pudor, como na sequência de "às vezes me preservo, noutras, suicido".
"Oh, sim!Eu estou tão cansadoMas não prá dizerQue não acreditoMais em você"
A partir das conclusões anteriores, pode-se entender esta passagem como o cansaço do locutor destes joguetes de amor, mas ele não quer se render a um comodismo e manter uma relação com alguém que o traia.
"Eu não precisoDe muito dinheiroGraças a Deus!Mas vou tomarAquele velho navioAquele velho navio!"
O dinheiro não tem um vínculo muito consistente com o resto da letra, mas, se considerar algo como "separação de bens" de um divórcio, dá sentido a este trecho, uma vez que ele finaliza dizendo que vai "tomar aquele velho navio", onde "tomar" não é "tirar à força", mas "embarcar", então, compreende-se que ele voltará a ficar à deriva, como antes, uma pessoa solitária, sem rumo nem vela.
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