terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Chico Buarque - Cotidiano


Contexto:
A música inteira se repete duas vezes, isto reforça ainda mais a ideia de rotina para representar a vida cotidiana de um casal. Vale lembrar que a letra foi lançada em 1971 e refletia a realidade da época, em que a mulher ficava mais em casa à espera do marido (o que é chamado de "machista", apesar de eu discordar da aplicação do termo e deixar apenas como observação) e o proletário tinha uma figura diferente na sociedade, além de um senso crítico por vezes bem formado em comparação com os dias atuais.
"Todo dia ela faz tudo sempre igual:
Me sacode às seis horas da manhã,
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã"
O nome da música, "Cotidiano", refere à situações corriqueiras, mas a letra já começa afirmando uma rotina, a vida enfadonha que se repete. A primeira personagem citada, "ela", compreendida como a esposa do locutor, faz todo dia a mesma coisa, "me sacode às seis", ou seja, acorda o marido bem cedo e sorri de forma "pontual", não só pelo horário, mas este termo pode indicar precisão, como se o sorriso fosse necessário para começar bem o dia e o beija com a boca de hortelã, o sabor mais comum de creme dental.
"Todo dia ela diz que é pr'eu me cuidar
E essas coisas que diz toda mulher.
Diz que está me esperando pr'o jantar
E me beija com a boca de café"
A repetição de "todo dia" vem afirmar a ideia de rotina, desta vez, mostrando a constante preocupação da esposa, típica das mulheres. Aqui, o locutor delimita a passagem de tempo "todo dia" acorda às seis, vai trabalhar após o café, e volta para o jantar; justamente "me beija com a boca de café" é um recurso para finalizar a passagem cronológica, pois indica que acabaram de tomar café.
"Todo dia eu só penso em poder parar;
Meio-dia eu só penso em dizer não,
Depois penso na vida pra levar
E me calo com a boca de feijão"
Pensar em poder parar é outro indicativo de enfado com a rotina de trabalho, ao mesmo tempo que pode referir ao sonho de aposentar-se. "Meio-dia eu só penso em dizer não" refere à vontade do locutor de largar o emprego, no entanto, pode ser uma metáfora com o tempo de vida, parafraseando a charada da esfinge, na qual "meio-dia" seria a juventude do homem, a fase que queremos viver a vida ao invés de trabalhar, daí, vem o peso da responsabilidade que o mantém nos eixos, da "vida pra levar". "E me calo com a boca de feijão" marca a passagem cronológica do almoço, além de mostrar que a necessidade de manter seu sustento é o que mantém os trabalhadores na linha, calados, para não se rebelarem ou desertarem seus empregos, por mais árduos que sejam.
"Seis da tarde, como era de se esperar,
Ela pega e me espera no portão
Diz que está muito louca pra beijar
E me beija com a boca de paixão"
Aqui é apresentada a volta para casa proferida na segunda estrofe. Quando o locutor diz que a mulher "pega", está utilizando de linguagem popular para dizer que às seis horas ela para o que está fazendo para esperá-lo no portão. Os dois últimos versos são indicativos do desejo carnal, "louca pra beijar" e "paixão" são eufemismos para o sexo subliminar que aparece na mente dos interlocutores ao ouvirem estas palavras.
"Toda noite ela diz pr'eu não me afastar;
Meia-noite ela jura eterno amor
E me aperta pr'eu quase sufocar
E me morde com a boca de pavor"
Nesta estrofe, o locutor fala do medo que sua mulher sente do abandono e de seu apego a ele. "Meia-noite ela jura eterno amor" pode tanto dar continuidade à metáfora da esfinge, sobre amar até o fim da vida, quanto ao eufemismo sexual, portanto, simbolizando o momento do clímax, do orgasmo. No meio do êxtase, a mulher se prende ao locutor e o morde com medo de que ele vá embora, ou se perca de qualquer forma.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Zeca Baleiro - Flor da Pele


Curiosidade: É interessante lembrar que esta música foi utilizada como trilha sonora de novela, o que gera uma metalinguagem com as cenas de beijo e às inconstâncias de relacionamentos, tão comuns a este gênero literário.

"Ando tão à flor da pele
Qualquer beijo de novela
Me faz chorar"
A letra começa falando do tempo psicológico do relato. "Ando" é um jeito de dizer "ultimamente" e "à flor da pele" é uma metáfora para sensível. Portanto, a primeira estrofe mostra que o locutor está em um momento de sensibilidade em que qualquer miudeza toca seu íntimo, mesmo algo como um beijo de novela pode remeter ao âmago e trazer uma lembrança emotiva, portanto, culminando no choro.
"Ando tão à flor da pele
Que teu olhar 'flor na janela'
Me faz morrer"
A repetição que se segue dá ênfase ao estado, à medida que brinca com as palavras e cita a "flor na janela". Há uma superstição brasileira sobre flores colocadas nas janelas para livrar os moradores do mau-olhado, dizem que quando as plantas morrem é porque absorveram muita energia negativa. Complementando o quadro, há um hábito comum de se colocar mudas jovens de pimenteira na janela, pois é uma planta forte e, segundo a sabedoria popular, bem indicada para este ritual, além de propiciar pequenas flores brancas.
Além desta breve explanação cultural, "flor" também simboliza "mulher", portanto, pode indicar um dialogismo entre os significantes, de modo que o olhar de desejo de uma mulher faça com que que o interlocutor "morra", tamanha sua sensibilidade, apesar de que esta finitude pode estar relacionada a um "morrer de prazer" ou "vergonha", ou, ainda, a uma drenagem de suas defesas.
"Ando tão à flor da pele
Meu desejo se confunde
Com a vontade de não ser"
Nesta sequência, a suspeita se afirma quando ele fala do desejo, tão grande, que se confunde com a vontade de não ser. Isto é meio ambíguo, mas é perceptível no sentido de negação, pois quando se sente muita necessidade de algo, começamos a querer que este algo não seja mais necessário, de modo a apaziguar o ID. (conceito da psicanálise que engloba o instinto e os desejos irrefreáveis do ser).
"Ando tão à flor da pele
Que a minha pele
Tem o fogo
Do juízo final"
Mais uma vez o locutor reforça sua instância emotiva e completa, desta vez, com "minha pele tem o fogo do juízo final". Fogo, no sentido figurado, indica libido, a metáfora vem para mensurar que a libido não tem limites, como o fogo do juízo final. Esta é uma crença cristã que prevê o fim do mundo em chamas, uma vez que já se acabou em água uma vez (dilúvio).
"Um barco sem porto
Sem rumo, sem vela
Cavalo sem sela
Um bicho solto
Um cão sem dono
Um menino, um bandido
Às vezes me preservo
Noutras, suicido!"
Neste ponto da música, o locutor começa a se comparar a uma série de coisas. Primeiro a um barco, desgovernado, sem ímpeto e desamparado; um cavalo indomável, um animal selvagem, um cão vadio; alguém inocente e, ao mesmo tempo indecente. Com isto, percebe-se que o locutor pode ser uma pessoa solitária em crise, que vezes se protege de relacionamentos, outras se atira a eles sem o menor pudor, como na sequência de "às vezes me preservo, noutras, suicido".
"Oh, sim!
Eu estou tão cansado
Mas não prá dizer
Que não acredito
Mais em você"
A partir das conclusões anteriores, pode-se entender esta passagem como o cansaço do locutor destes joguetes de amor, mas ele não quer se render a um comodismo e manter uma relação com alguém que o traia.
"Eu não preciso
De muito dinheiro
Graças a Deus!
Mas vou tomar
Aquele velho navio
Aquele velho navio!"
O dinheiro não tem um vínculo muito consistente com o resto da letra, mas, se considerar algo como "separação de bens" de um divórcio, dá sentido a este trecho, uma vez que ele finaliza dizendo que vai "tomar aquele velho navio", onde "tomar" não é "tirar à força", mas "embarcar", então, compreende-se que ele voltará a ficar à deriva, como antes, uma pessoa solitária, sem rumo nem vela.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Chico Buarque - Roda Viva


Contexto: Escrita para a peça homônima em 1967 participou do conjunto de obras de crítica à ditadura brasileira.
"Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu"
A primeira estrofe já começa indicando um mal-estar, como reclamando das angústias a um amigo. “Partir” indica movimento, viagem, e pode ser tratado como eufemismo para “morrer” e, do modo como são colocadas, estas palavras parecem sinônimas, mas podem ter um sentido antitético se pensarmos na partida como o começo de algo novo e na morte como fim, resultando em um beco sem saída, traduzido em “estancar”, que indica uma parada abrupta, estagnação, interpretável como um atraso frente ao mundo em expansão, citado ao final. É uma indicação do atraso sócio-político brasileiro. Vale lembrar que "estancar" é um termo mais empregado na medicina para estancar o sangue, que pode ser uma referência à violência física empregada em investidas ditatoriais.
"A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino prá lá"
"A gente" pode tanto ser empregada como verbete coloquial para o pronome pessoal "nós", quanto substantivo sinônimo de "o povo" ou "as pessoas" que querem ter "voz ativa” por causa da censura, da falta de opinião pública que culmina no movimento que carrega o destino do país. A “roda-viva” ali citada pode referir aos militares, pois o termo tem significado de confusão, que seria uma forma de traduzir as ações de represália.
"Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração"
A este refrão, atribuo duas interpretações: A primeira seria pela sonoridade, ou seja "o mundo é como uma roda gigante, rodopiando no redemoinho". A segunda envolve uma análise mais elaborada de metáforas empregáveis, por exemplo, assim como o mundo dá voltas (tempo), a roda-gigante (lentidão), o moinho (trabalho) e o pião (velocidade, diversão), tem-se a metáfora da rotina do cotidiano em que o tempo passa lentamente, todos trabalham e giram o engenho da sociedade, tem um pouco de diversão rápida e, logo em seguida, tudo volta ao começo.
“O tempo rodou num instante” dá a impressão de uma passagem rápida de tempo, mas, pelo contexto supracitado, percebe-se um retrocesso no tempo, como a repetição de uma rotina, não apenas diária, mas uma crítica ao retorno de práticas de barbárie utilizadas na ditadura, enquanto "nas voltas do meu coração" representa as incertezas.
"A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir"
Correntes simbolizam a represália do sistema, as amarras sociais, que, na ditadura, eram mantidas por meio da violência; na metáfora empregada, são correntes marítimas, ou seja, obstáculos que te empurram de volta ao ponto de partida, mas também rumo ao desconhecido.
A volta do barco pode dizer do fim do dia de trabalho para um pescador, que vai ver o quanto deixou de cumprir, ou seja, não frutificou sua viagem; por outro lado, pode estar referindo ao movimento da corrente de empurro e empuxo como "volta" do barco, portanto, de modo mais poético, quando se deixa levar pelo sistema é que se sente a indignação e, no empuxo, o reflexo.
"Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a roseira prá lá"
O cultivo da roseira, por se tratar de uma flor com espinhos, pode aludir ao espírito crítico, que também é destruído pelo militarismo, reafirmando o histórico brasileiro de prussianismo.
"A roda da saia mulata
Não quer mais rodar não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou"
A saia rodada da mulata é um elemento da cultura brasileira, da roda de samba, vem dizer que a mulata não mais dança se não há música, que é um dos efeitos da censura sobre as manifestações artísticas, principalmente o samba e sua característica popular que, à época, era de instrumento subversivo.
É importante salientar o "não senhor" como expressão típica da subserviência e obediência, algo de hierárquico e um tanto definitivo, como se dissesse "de jeito nenhum".
"A gente toma a iniciativa
Viola na rua a cantar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a viola prá lá"
Novamente "a gente" que toma iniciativa, são os grupos subversivos da resistência, a crítica do samba que tenta retornar às ruas, mas é desmantelado pela "roda-viva" militar.
"O samba, a viola, a roseira
Que um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou"
O samba (a expressão, a cultura), a viola (o instrumento), a roseira (o senso crítico) queimados na fogueira são referências à inquisição da Idade Média. No fim, era como se nada disso tivesse existido, a ilusão de liberdade adquirida entre os anos de monarquia e ditadura foram levados pela “brisa”, que pode ser uma alusão a Leonel Brisola, um dos apoiadores do governo de João Goulart, cujas investidas políticas desgostavam a oligarquia local e aos Estados Unidos da América, incitando a revolta militar como parte dos interesses capitalistas.
"No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a saudade prá lá"
Como que desistindo da luta, a última estrofe começa a cantar a saudade. Este elemento é importante pois simboliza o exílio dos artistas subversivos e a saudade que estes sentiam de casa, da mesma forma que a falta que as famílias sentiam dos vitimados e que as pessoas sentiam de sua própria liberdade. No último verso, no entanto, a palavra "saudade" muda de significado para algo que tem sido levada do povo brasileiro a cada dia por um inimigo mesquinho chamado tempo: a memória!

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Enfim, espero que tenham gostado do primeiro post com esta incrível música. E, como eu não tirei tudo só da minha cabeça, segue abaixo um link onde vocês poderão encontrar algumas referências que coloquei acima:

TV CULTURA. Poesia ponto com: Roda-Viva. Disponível em: http://www2.tvcultura.com.br/aloescola/literatura/poesias/chicobuarquedehollanda_rodaviva.htm , acesso em 11 de agosto de 2011.

Começo

Olá, este é o "Melodicionário". Criei este blog para exercitar uma das categorias do pensamento que vem sendo marginalizadas pelas áreas do saber: a análise.
Enquanto somos engessados pelos meandros acadêmicos, creio que a melhor forma de promover uma boa decoupagem é através da apreciação livre. Portanto, inicio aqui um projeto de "tradução" de músicas a meu bel-prazer.
Não me importo com o que o autor quis ou não dizer, afinal, só ele mesmo sabe disso, me preocupo apenas em viajar nas composições alheias e trazer para o palpável as ideias que vagueiam por aí. Espero que haja quem aprecie, da mesma forma que prevejo quem deprecie. E vamos ouvir o que é bom, pois assim, evoluímos!