Contexto: Escrita para a peça homônima em 1967 participou do conjunto de obras de crítica à ditadura brasileira.
"Tem dias que a gente se senteComo quem partiu ou morreuA gente estancou de repenteOu foi o mundo então que cresceu"
A primeira estrofe já começa indicando um mal-estar, como reclamando das angústias a um amigo. “Partir” indica movimento, viagem, e pode ser tratado como eufemismo para “morrer” e, do modo como são colocadas, estas palavras parecem sinônimas, mas podem ter um sentido antitético se pensarmos na partida como o começo de algo novo e na morte como fim, resultando em um beco sem saída, traduzido em “estancar”, que indica uma parada abrupta, estagnação, interpretável como um atraso frente ao mundo em expansão, citado ao final. É uma indicação do atraso sócio-político brasileiro. Vale lembrar que "estancar" é um termo mais empregado na medicina para estancar o sangue, que pode ser uma referência à violência física empregada em investidas ditatoriais.
"A gente quer ter voz ativaNo nosso destino mandarMas eis que chega a roda vivaE carrega o destino prá lá"
"A gente" pode tanto ser empregada como verbete coloquial para o pronome pessoal "nós", quanto substantivo sinônimo de "o povo" ou "as pessoas" que querem ter "voz ativa” por causa da censura, da falta de opinião pública que culmina no movimento que carrega o destino do país. A “roda-viva” ali citada pode referir aos militares, pois o termo tem significado de confusão, que seria uma forma de traduzir as ações de represália.
"Roda mundo, roda giganteRoda moinho, roda piãoO tempo rodou num instanteNas voltas do meu coração"
A este refrão, atribuo duas interpretações: A primeira seria pela sonoridade, ou seja "o mundo é como uma roda gigante, rodopiando no redemoinho". A segunda envolve uma análise mais elaborada de metáforas empregáveis, por exemplo, assim como o mundo dá voltas (tempo), a roda-gigante (lentidão), o moinho (trabalho) e o pião (velocidade, diversão), tem-se a metáfora da rotina do cotidiano em que o tempo passa lentamente, todos trabalham e giram o engenho da sociedade, tem um pouco de diversão rápida e, logo em seguida, tudo volta ao começo.
“O tempo rodou num instante” dá a impressão de uma passagem rápida de tempo, mas, pelo contexto supracitado, percebe-se um retrocesso no tempo, como a repetição de uma rotina, não apenas diária, mas uma crítica ao retorno de práticas de barbárie utilizadas na ditadura, enquanto "nas voltas do meu coração" representa as incertezas.
"A gente vai contra a correnteAté não poder resistirNa volta do barco é que senteO quanto deixou de cumprir"
Correntes simbolizam a represália do sistema, as amarras sociais, que, na ditadura, eram mantidas por meio da violência; na metáfora empregada, são correntes marítimas, ou seja, obstáculos que te empurram de volta ao ponto de partida, mas também rumo ao desconhecido.
A volta do barco pode dizer do fim do dia de trabalho para um pescador, que vai ver o quanto deixou de cumprir, ou seja, não frutificou sua viagem; por outro lado, pode estar referindo ao movimento da corrente de empurro e empuxo como "volta" do barco, portanto, de modo mais poético, quando se deixa levar pelo sistema é que se sente a indignação e, no empuxo, o reflexo.
"Faz tempo que a gente cultivaA mais linda roseira que háMas eis que chega a roda vivaE carrega a roseira prá lá"
O cultivo da roseira, por se tratar de uma flor com espinhos, pode aludir ao espírito crítico, que também é destruído pelo militarismo, reafirmando o histórico brasileiro de prussianismo.
"A roda da saia mulataNão quer mais rodar não senhorNão posso fazer serenataA roda de samba acabou"
A saia rodada da mulata é um elemento da cultura brasileira, da roda de samba, vem dizer que a mulata não mais dança se não há música, que é um dos efeitos da censura sobre as manifestações artísticas, principalmente o samba e sua característica popular que, à época, era de instrumento subversivo.
É importante salientar o "não senhor" como expressão típica da subserviência e obediência, algo de hierárquico e um tanto definitivo, como se dissesse "de jeito nenhum".
"A gente toma a iniciativaViola na rua a cantarMas eis que chega a roda vivaE carrega a viola prá lá"
Novamente "a gente" que toma iniciativa, são os grupos subversivos da resistência, a crítica do samba que tenta retornar às ruas, mas é desmantelado pela "roda-viva" militar.
"O samba, a viola, a roseiraQue um dia a fogueira queimouFoi tudo ilusão passageiraQue a brisa primeira levou"
O samba (a expressão, a cultura), a viola (o instrumento), a roseira (o senso crítico) queimados na fogueira são referências à inquisição da Idade Média. No fim, era como se nada disso tivesse existido, a ilusão de liberdade adquirida entre os anos de monarquia e ditadura foram levados pela “brisa”, que pode ser uma alusão a Leonel Brisola, um dos apoiadores do governo de João Goulart, cujas investidas políticas desgostavam a oligarquia local e aos Estados Unidos da América, incitando a revolta militar como parte dos interesses capitalistas.
"No peito a saudade cativaFaz força pro tempo pararMas eis que chega a roda vivaE carrega a saudade prá lá"
Como que desistindo da luta, a última estrofe começa a cantar a saudade. Este elemento é importante pois simboliza o exílio dos artistas subversivos e a saudade que estes sentiam de casa, da mesma forma que a falta que as famílias sentiam dos vitimados e que as pessoas sentiam de sua própria liberdade. No último verso, no entanto, a palavra "saudade" muda de significado para algo que tem sido levada do povo brasileiro a cada dia por um inimigo mesquinho chamado tempo: a memória!
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Enfim, espero que tenham gostado do primeiro post com esta incrível música. E, como eu não tirei tudo só da minha cabeça, segue abaixo um link onde vocês poderão encontrar algumas referências que coloquei acima:
TV CULTURA. Poesia ponto com: Roda-Viva. Disponível em: http://www2.tvcultura.com.br/aloescola/literatura/poesias/chicobuarquedehollanda_rodaviva.htm , acesso em 11 de agosto de 2011.
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